Brasília é fria?

A famosa frieza do brasiliense é real — só que diluída pelo encontro de gente do país inteiro, tão recém-chegada quanto você.

Antes de se mudar, quase todo mundo pesquisa a cidade na internet — e, no meio dos vídeos e dos posts, esbarra na mesma frase: "brasiliense é frio". Dá um certo receio. Então vai aqui um aviso para acalmar quem está chegando: não vai ser tão chocante quanto parece.

É. Mas essa não é a história inteira.

É verdade que o brasiliense de raiz costuma ser mais reservado — educado, mas distante. Só que Brasília está longe de ser feita só de brasilienses. Talvez seja uma das cidades mais "de fora" do país.

Brasília também é uma cidade de chegadas.

Depende, claro, de onde você vai morar. O Plano Piloto, mais tradicional e antigo, concentra famílias que estão aqui há mais tempo. Já regiões como Águas Claras e o Guará são o oposto: em Águas Claras, cerca de metade da população veio de outro estado. No Distrito Federal como um todo, mais da metade de quem migrou nasceu no Nordeste, segundo a antiga Codeplan — e o restante se reparte entre Norte, Sul e Sudeste.

Tem gente do Norte, do Nordeste, do Sul, do Sudeste.

A frieza que se dilui

E é aí que a fama perde força. Se você chega transferido de outro estado, é quase certo que as pessoas ao seu lado — no prédio, no trabalho, na academia — também chegaram assim: umas junto com você, outras anos atrás, mas todas lembram como é recomeçar numa cidade nova. Essa turma não carrega a tal frieza; chega aberta, justamente porque também precisou se reconstruir por aqui. O encontro não depende de um lugar específico — acontece no bairro, no corredor do trabalho, na fila do café.

Muita gente ao seu lado também está tentando pertencer.

O bar é só um dos cenários. Não que exista fórmula — dá para sentar sozinho num boteco dezenas de vezes e não acontecer nada. Mas, quando o encontro vem, costuma ser assim: um amigo chegou sozinho a um barzinho de Águas Claras; o garçom apontou duas moças que também estavam sozinhas e sugeriu juntar as mesas. Uma era do Amapá, a outra do Pará; depois, um casal de irmãos do Piauí se somou. Cinco pessoas, quatro estados, nenhuma de Brasília. Não foi o bar que fez a mágica: foi a cidade estar cheia de gente aberta e de fora.

Não existe lugar mágico.
O encontro nasce quando duas chegadas se reconhecem.

Então, se você pesquisou e se assustou com a fama, respira. A frieza de Brasília é verdadeira só até você perceber quanta gente aqui chegou exatamente como você.

A frieza é do brasiliense. O calor, muitas vezes, vem de quem chega.

A frieza é do brasiliense; o calor, de quem chega.

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