Na última edição, contei como minha mudança rápida de Goiânia para Brasília me deixou dividido entre duas cidades. Eu trabalhava em Brasília, morava em uma kitnet no fim da Asa Norte e ainda mantinha meu antigo apartamento mobiliado em Goiânia.

Certa madrugada, acordei no apartamento antigo e não consegui identificar imediatamente onde estava. Foi quando percebi que vivia em um não-lugar: já tinha saído de uma cidade, mas ainda não havia chegado emocionalmente à outra.

A superação dessa fase não começou com um grande plano. Começou de uma maneira quase banal: um dia, resolvi sair sozinho.

Por acaso, encontrei um amigo de um amigo meu. Ele era mineiro, também morava em uma kitnet e havia acabado de atravessar uma mudança importante na própria vida. Começamos a conversar e percebemos que, apesar das histórias diferentes, enfrentávamos dificuldades parecidas para reorganizar a vida.

Ele me falou sobre o bairro onde morava. Naquele momento, havia opções com preços mais acessíveis e uma rotina que poderia funcionar melhor para mim. Sugeriu que eu conhecesse o Sudoeste.

Fui conhecer o bairro. A indicação abriu uma possibilidade que eu não enxergava quando cheguei. Até então, eu ainda vivia na primeira solução de moradia que tinha encontrado. Conhecer outra região me mostrou que eu podia escolher melhor o território em que construiria minha rotina.

Depois, por meio de outro contato, conheci mais uma pessoa que também estava de mudança para Brasília. Aos poucos, a experiência que parecia exclusivamente minha começou a ganhar rostos, conversas e referências.

Quatro meses depois da minha chegada, mudei de lugar. Essa decisão foi fundamental, mas não apenas por causa do endereço. O mais importante foi começar a ter alguém com quem sair, conversar e dividir as dores daquela fase.

Aquele encontro por acaso se transformou em uma amizade verdadeira, que permanece até hoje. A vida do meu amigo também seguiu: ele mudou de bairro, casou-se e teve um filho. O vínculo que começou quando os dois ainda tentavam reorganizar a vida atravessou novas fases.

O acaso ajudou, mas ele só aconteceu porque eu saí de casa. A amizade nasceu do encontro, mas permaneceu porque transformamos a coincidência em convivência.

Com o tempo, consegui construir vínculos fortes em Brasília. A cidade que inicialmente parecia provisória começou a guardar pessoas, histórias e memórias. Ela deixou de ser apenas o lugar do trabalho e começou a se tornar também o lugar da minha vida.

Passei a registrar o que aprendia sobre bairros, custos, trajetos, rotina, relações e adaptação. O que começou como uma espécie de diário pessoal ganhou método. As anotações formaram um mapa, e esse mapa acabou se transformando no projeto Morar em Brasília.

Por isso, este projeto não nasceu apenas para dizer onde morar ou quanto custa viver aqui. Ele nasceu da minha travessia entre o não-lugar e o pertencimento. Nasceu para oferecer a outras pessoas a orientação que eu gostaria de ter recebido quando cheguei.

Se Brasília ainda parece provisória para você, não espere sentir coragem completa para começar. Saia, mesmo que inicialmente seja sozinho. Aceite um convite. Converse com quem também está vivendo uma mudança. Conheça outro bairro. Repita um lugar. Transforme encontros em convivência.

Pertencimento não é o ponto de partida. É uma construção.

Responda a este e-mail: qual foi a primeira pessoa, o primeiro lugar ou o primeiro hábito que fez sua nova cidade começar a parecer casa?

Você não precisa chegar sozinho em Brasília.

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