Eu conheci a expressão “não-lugar” muito antes de morar em Brasília. Foi durante uma pós-graduação em Goiânia. Em uma aula, aprendi que o antropólogo francês Marc Augé usava esse conceito para descrever espaços de passagem, como aeroportos, rodovias, hotéis e supermercados.

São lugares pelos quais muita gente circula, mas nos quais a identidade, as relações e a história compartilhada ficam enfraquecidas. Naquela época, entendi tudo de maneira acadêmica. Parecia apenas uma teoria interessante sobre o mundo contemporâneo.

Eu não imaginava que, anos depois, essa ideia explicaria o que estava acontecendo comigo.

Minha mudança de Goiânia para Brasília foi muito rápida. Quando cheguei, fui morar em uma kitnet no fim da Asa Norte. Ao mesmo tempo, meu antigo apartamento continuava mobiliado em Goiânia.

Era como se minha vida tivesse sido dividida entre dois endereços antes que eu conseguisse compreender o que aquela mudança significava.

Eu enfrentava um ambiente de trabalho novo, muitos desafios e uma cidade onde não conhecia praticamente ninguém. Durante a semana, tentava aprender a rotina de Brasília. Nos fins de semana, voltava para Goiânia para ver minha família, como ainda faço muitas vezes.

Em uma dessas viagens, aconteceu uma coisa que nunca esqueci. Acordei de madrugada no meu antigo apartamento e, por alguns instantes, não consegui identificar onde estava.

Aquilo me deu um choque.

Eu era de Goiânia ou já era de Brasília? A minha casa estava ali ou na kitnet da Asa Norte? Eu estava apenas passando por Brasília ou realmente havia começado uma vida nova? Estava enfrentando uma fase provisória ou vivendo uma transformação?

Foi naquele momento que a antiga aula voltou à minha memória.

Eu não estava literalmente em um aeroporto, mas vivia como se estivesse em trânsito. Goiânia ainda guardava minha história, minha família e minhas referências. Brasília já concentrava meu trabalho e parte do meu futuro, mas ainda não tinha relações, memória e raízes suficientes para ser chamada de lar.

Eu tinha saído de um lugar sem ter chegado completamente ao outro. Aquele era o meu não-lugar.

Eu estava havia cerca de dois meses em Brasília e ainda não sabia exatamente onde estava, quem estava me tornando ou a qual cidade pertencia.

Hoje entendo que essa sensação é normal. Mudar de cidade não significa apenas transportar móveis, assinar um contrato e começar um novo emprego. Existe uma mudança invisível, que envolve identidade, rotina, vínculos e a maneira como a pessoa se reconhece no mundo.

Talvez você também tenha vivido isso. A mudança física já terminou, mas a chegada emocional ainda não aconteceu.

Na próxima edição, vou contar o que começou a mudar quando decidi sair sozinho, conheci uma pessoa por acaso e descobri que o pertencimento pode começar com um único encontro.

Responda a este e-mail completando a frase: “Eu percebi que estava em um não-lugar quando...”.

Referência conceitual: Marc Augé, antropólogo francês e autor de “Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade”. Neste texto, aplico o conceito de forma autoral à experiência emocional de mudar de cidade.

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